
Perturbador.
Assim é o poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos, parte da “Fase Pessimista” de Fernando Pessoa. Perturbador, principalmente porque, apesar de escrito em 1928, é um texto que se encaixa muito bem na nossa realidade hoje.
Nos primeiros quatro versos ele já demonstra sua desilusão com a vida e o mundo. Fala do “aprisionamento” interno de suas idéias, sentimentos e opiniões que são calados pela realidade exterior. E compara a solidão em seu quarto, de onde observa o movimento nas ruas e na tabacaria, com a sua solidão interior, onde ninguém o vê, nem o ouve. Se compara ainda a outros solitários espalhados pela vastidão exterior que também observam o mundo de sua janela, aprisionando suas idéias na mente e seus corpos em quartos.
Mas também começa a fazer algo que se torna constante no decorrer do poema: ele provoca o leitor a se refletir, a pensar nos erros que está cometendo; erros estes que o próprio autor cometeu e se arrepende.
E ele vai além: embora sinta-se desiludido, incentiva o leitor a não ser medíocre, a não aceitar “rótulos”, a ter coragem para lutar e realizar um sonho ou idéia, a não perder suas opiniões. Porque agora ele percebe que de nada adiantou se anular no mundo, simplesmente ser mais um. Porque na verdade ele não viveu, não fez diferença, ele apenas fez o que o mundo exterior esperava que ele fizesse: “Vivi, estudei, amei e até cri, e hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”.
E, mergulhado em tantos sonhos e pensamentos, ele se vê de repente jogado na realidade com o aceno do amigo Esteves e o sorriso do dono da tabacaria. E se assusta porque ele não está mais, naquele momento, invisível ao mundo exterior.As pessoas o vêm e ele não está mais só. Deixou, mais uma vez, de ser observador do mundo para fazer parte dele.
O autor pode não ter sido tudo o que quis, mas não abriu mão de sua personalidade e inteligência para se enquadrar no mundo medíocre. Escrever seus poemas é uma forma de não se deixar passar em branco, não permitir que sua essência pessoal se perca no mundo lá fora. Porém percebe tardiamente, que poderia ter feito mais: “Fiz de mim o que não soube e o que podia fazer de mim não o fiz.” Também se compara à tabacaria, que durará mais tempo que ele, mas também acabará e será somente uma vaga lembrança na curta memória do mundo exterior.
Porém, oitenta anos depois, seu poema continua vivo, surpreendendo e encorajando desiludidos espalhados por essa cruel imensidão exterior. Sim, talvez a tabacaria não exista mais, mas seu significado continua vivo no poema de um homem desiludido que um dia olhando de sua janela, percebeu o quanto os dois tinham em comum e fez através de um poema com que nenhum dos dois pudesse mais ser esquecido.
Maria Luiza Sena

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